27 Ago Bem-vindos ao Manicómio

O letreiro néon ao fundo antecipa que tudo aquilo a que vamos assistir neste open space é baseado numa estória verídica. A arte conta pelos dedos a vida de dez artistas com doenças mentais que encontraram aqui, mais do que liberdade para explorar o seu talento, o apoio financeiro, logístico e emocional necessário para poderem voar sozinhos. Sandro Resende abre-nos as portas do Manicómio, onde o ilustrador e chef mexicano Jos* deu asas ao desafio lançado pelo Poster.

POSTER: Já conhecias o Bruno Pereira há muito tempo. Porque é que fez sentido para vocês, Manicómio, aceitarem o convite para participar?

Sandro Resende (SR):O Poster é um projeto que nós, Manicómio, achamos muito relevante para a cidade. Achámos também que era muito importante estarmos presentes com os nossos artistas, dar-lhes essa dignidade de entrar num projeto de arte contemporânea. O Bruno é nosso fã, nós também somos fãs dele, e as coisas aparecem assim, de uma forma muito orgânica. E apareceu o Jos*.

POSTER: Porquê este artista?

SR: O Jos*é um artista de rua, apesar de não ser um artista de rua. Isto quer dizer o quê? Que não é um street artist, não é um graffiter, é alguém que na rua encontra os seus momentos que quer depois adaptar para o papel. A vivência. E o Poster é isso mesmo. Ele não é um artista que tenha de ser interventivo politicamente. É um observador do real, seja como chef ou como espetador normal na rua. Portanto, foi um 2 em 1, um win-win, que era o poster como objeto de rua e o Jos*, pelo seu olhar da rua. E assim é um registo da rua dentro da rua.

“Arte não é só loucura nem é só talento.”

POSTER: Que Manicómio é este que inauguraram em março aqui no Beato?

SR: O Manicómio são estórias de vida, estórias reais de vida. Tanto destes artistas que nós temos aqui, assim como das pessoas que trabalham com eles, como é o meu caso e do José Azevedo. Nós trabalhamos há 20 anos no Júlio de Matos e achámos que era altura era a altura de sair (apesar de continuarmos), com um projeto com a maior dignidade humana e artística possível.  E aqui nós encontrámos – não é bem uma solução – mas encontrámos aqui este conceito, que era poder ter 10 artistas a trabalhar em open space, sem paredes, juntamente com outras pessoas não têm nada a ver com arte. Este equilíbrio entre pessoas com experiência e doença mental e pessoas sem experiência e doença mental para ganhar autoestima, dignidade e humanização. Estes artistas têm uma coisa que é fundamental, que é a honestidade perante o trabalho artístico e a autenticidade que eles impõem no trabalho. Portanto, não existe um ícone comercial nem vendável, portanto, não há essa pressão. E têm uma bolsa de estudo que lhes permite uma disponibilidade financeira e que lhes permite sobreviver só trabalhando em arte.

POSTER: Como é que o Sandro e o José guiam estes artistas no processo de criação e os ajudam a encontrar o seu caminho?

SR: Estas 10 pessoas já têm um trabalho artístico, apesar de nunca ter sido conhecido nem reconhecido. É um trabalho artístico que nós achámos que tinha qualidade para estar presente. Nem todos os doentes são génios nem todos os génios são loucos. Isso é um mito urbano. E muitos dos doentes não têm qualquer tipo de criatividade nem querer ter, nem têm qualquer tipo de interesse. Estes têm em trabalhar. E trabalhar de uma forma, mais uma vez, honesta e autêntica e coerente. Nós não guiamos. Repare, isto é quase como um espaço de trabalho. Se houver uma produção boa de trabalho que eles próprios produzam, nós temos todo o gosto em produzir e vendê-la em exposições como o Poster. Arte não é só loucura nem é só talento. Arte é muito, muito, 90% trabalho. Portanto, nós nem nos pomos numa posição de ajuda, pomo-nos numa posição, mais uma vez, de equilíbrio e de igualdade. Nós fazemos a direção artística, a direção, a produção e os eventos.

POSTER: O primeiro projeto foi o livro “Anabela”, da escultora Anabela Soares. O que é podemos esperar do que aí vem?

SR: Este projeto está a crescer bastante. Vamos abrir mais dos espaços no fim deste ano para outros sítios, um na LX Factory e o outro também no Beato. Vamos abrir uma revista Manicómio e uma rádio Manicómio. Vamos ter mais artistas, 30 ao todo. E vamos publicar 5 livros de autor por ano.

POSTER: Também se perspetiva a abertura de um restaurante, o “Inconveniente por Manicómio”… O que é nos podes adiantar?

SR: Estamos a trabalhar nisso, sendo que neste momento estamos a ter muitas solicitações, de empresas privadas para eventos e exposições… e por isso, deixámos o restaurante um bocadinho em stand-by. Estamos mesmo aflitos de trabalho e preocupados com a revista e a rádio e a abertura do novo espaço, que será ainda este ano. Mas será uma espécie de um restaurante pop-up: para abrir só um dia, só uma noite, só para um jantar… Uma cosia muito especial.

 

Antes de sair…

Instalado no co-work Now, na Rua do Grilo, o Manicómio é o primeiro espaço de criação de Arte Bruta a surgir em Portugal. Foi fundado pela associação P28, que dinamiza o pavilhão 31 no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa. O projeto conta com o apoio da Turismo de Portugal, instituições de saúde, Câmara Municipal de Lisboa e juntas de freguesia do concelho.

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