02 Out Uma Lisboa com mais osso e menos metal. Com ou sem aspa(s).

Participou no Poster com uma radiografia de um edifício pombalino, numa tentativa de lançar o debate em torno da renovação arquitetónica da baixa. Parte de uma jovem geração dedicada à reabilitação urbana, o atelier ASPA coloca a espacialidade em primeiro plano, respeitando o património e resistindo às tendências apoiadas no primado na estética que estão a desvirtuar a cidade. É este o “carril maior” pelo qual, há 13 anos, Nuno Caetano e José Maria Cumbre fazem circular esta forma de pensar os lugares. Fomos à Rua do Salitre visitar a dupla, que esteve quase para ter nome de escritório de advogados. Mas garantimos que a estória tem mais graça contada na primeira pessoa.

POSTER: Pensávamos que já tínhamos tido obras do mais inusitado no Poster, mas eis que surge um RX… Porquê esta abordagem?

José Maria Cumbre (JMC): O tema da cidade e do edificado em Lisboa é um tema que é muito discutido aqui no atelier. Nestes últimos anos, Lisboa foi alvo de uma reestruturação absolutamente gigante. E a nosso ver, nem sempre da melhor forma. Vamos imaginar um edifício que tem 100 anos com uma estrutura de madeira e que… passados 30 anos é colocado um vigamento metálico, passados 10 anos coloca-se noutro apartamento outra estrutura, um vigamento em betão. E está recheado de pequenas emendas, o que faz com que o edifício, no seu todo, além de ter problemas, apresente problemas que, a meu ver, podem estar ligados às questões estruturais. Perde a sua unidade. Utilizámos o caso paradigmático ou o caso que anos nos parece mais revelador desta ocorrência, que é o edifício pombalino, que está carregado de intervenções. Perdeu-se a sua génese construtiva…

Nuno Caetano (NC): E espacial também…

JMC: Em boa verdade, é como fazermos uma radiografia a uma pessoa e, de repente, ela estar cheia de peças metálicas a segurarem não sei… o osso onde devia ser osso…

POSTER: É uma boa analogia.

NC: E o poster é um pouco isso, mostrava um piso que era praticamente original. E, depois, percebia-se as tais intervenções que são desvirtuadas da original. Devia ser obrigatório manter uma estrutura, a ideia da estrutura, o máximo possível perto do original e a forma como se constrói também utilizar os materiais que fazem parte daquele tipo de edificado…

JMC: E aceitar a espacialidade de que o Nuno estava a falar, que é não fazer de um edifício pombalino um open-space quando aquilo tem uma estrutura que tem de ser preservada, não só pela questão construtiva, mas também pela questão patrimonial.

“Nós não estamos cá em cima a olhar para os outros; estamos cá em baixo a olhar para o poster.”

POSTER: E de que forma esta visão está alinhada com a forma de pensar do atelier?

JMC: Nem sempre está. Gostávamos de ser mais puristas, mais puros do que aquilo que somos. E a verdade é que aquilo onde chegámos veio de uma reflexão. Nós fazemos parte daqueles que devem olhar para o poster. Nós não estamos cá em cima a olhar para os outros; estamos cá em baixo a olhar para o poster. Estamos do lado das pessoas e acho que nós próprios devíamos refletir sobre isso, até porque já incorremos naqueles erros que ali apontamos.

NC: Mas isso surge de uma experiência prática…

POSTER: Como é que vocês, que são de cá e têm feito inúmeros projetos em Lisboa, veem iniciativas como esta na dinamização de Marvila?

NC: Eu julgo que há muitas pessoas em Lisboa que não conhecem efetivamente essa zona. Aquilo era uma zona bastante industrial, um pouco ali mais periférica, aquilo tem uma riqueza que se perdeu um pouco. Esta lógica do turismo atual desvirtuou de tal maneira a cidade, e há poucos polos em que ainda existem estas coisas que nos fazem lembrar uma Lisboa antiga, uma Lisboa que tinha as suas próprias particularidades. Nesse aspeto, acho que é interessante.

JMC: Há um cenário expectante e coloca-se uma mostra naquela zona. Independentemente de ser um poster de arquitetura ou outra coisa qualquer, acho que, por si só, é mais convidativa esta reflexão que possa ser lançada.

POSTER: Qual é o vosso lugar na arquitetura ou aquele em que gostam mais de estar?

NC: Nós empenhamo-nos em fazer coisas que possam perdurar no tempo.

JMC: Tem a ver com aquilo que o próprio lugar aceita ao longo dos anos, com a forma como o lugar absorve a intervenção… Acho que há um arquiteto que serve de exemplo nesse sentido.

NC: O nosso mestre…

JMC: O Siza. É incrível.

NC: Um edifício do Siza de há 10, 20, 30 anos continua a ser excecional. Hoje, a arquitetura é mais histriónica, refém de certos hypes… A estética é o ponto de partida.  Nós fazemos o contrário: há uma espacialidade, uma procura de depuração da espacialidade, não é a estética pela estética. Olho para os edifícios e parecem aqueles bolos muito bonitos por fora e às tantas aquilo não funciona como conjunto.

JMC: Deve haver espaço para a beleza espacial. Mas ela pode ser simples.

POSTER: E porquê “ASPA”?

NC: Falámos um com o outro e dissemos assim: “Eh, pá, com o nosso sobrenome, podia ser assim uma sociedade de advogados, tipo “Cumbre e Caetano”, “Caetano Cumbre” e pensámos: “Pá, isto não dá”. O nosso primeiro atelier era na Rua de S. Paulo, no Cais do Sodré. E o exercício foi um bocado esse, arranjar qualquer coisa que fosse um nome, mas fosse uma espécie de sigla de uma coletividade… E veio daí, “Atelier São Paulo Arquitetos”, daí, ASPA. Portanto, nós nunca revelámos o Atelier São Paulo Arquitetos”. Achámos mais fácil ser só ASPA.

JMC: As origens não têm de ser óbvias. Podem ser explicadas quando nos perguntam. A verdade é que ficou ASPA, mas a base… “Atelier São Paulo Arquitetos”, porque foi fundado no Largo de S. Paulo.

NC: No princípio, perguntaram-nos se éramos brasileiros. (risos) Lá está, uma zona que, quando nós fomos para lá, o Cais do Sodré era um sítio muito mais expectante, tinha esta ideia de uma Lisboa que já não se vê tanto hoje em dia. Tinha um encanto, uma espécie de patine, de decadência que era até interessante.

JMC: A partir do momento em que uma zona tem uma população residente, todo o comércio que aí existe dá resposta a quem aí vive. Agora, se há uma população temporária, aquilo vai ser um comércio de souvenirs e latas… O problema é esse. Nós não somos contra a cidade ter sido recuperada. É a forma como o fizeram.

NC: É uma espécie de tempo sem tempo que não dá bom resultado.

“Há uma procura de depuração da espacialidade, não é a estética pela estética.”

POSTER: Já estão juntos há 13 anos. Como é que descrevem a vossa relação?

JMC: É um casamento que se espera duradouro. É para a vida.

NC: Também tem os seus altos e baixos…

JMC: Como todas as relações. Eu acho que há uma filosofia de base, uma forma de pensar…. Existem atritos, existem conflitos, existem choques, mas, como em tudo, há sempre uma base, um carril maior, onde nós circulamos e onde nós queremos estar que nos leva para um determinado caminho que nos queremos alcançar e rapidamente as coisas são conduzidas para aí.

POSTER: E para onde é que caminham agora?

JMC: As perspetivas são boas. Mas queremos mais obra.

NC: Estamos sempre associados – é o reflexo desta geração – à reabilitação. Mas chega a uma altura em que ambicionamos mais. Aliás, temos agora um projeto público, de raiz, a Biblioteca de Torres Vedras. É mais desafiante.

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